#57 Vilmar – O menino de Saracuruna tem um sonho Nacional

De todas as histórias que já contámos, esta é das mais marcantes que vão ler. Com 25 anos, Vilmar é mais um jovem brasileiro que pretende vingar em solo europeu, mas há algo de especial na sua vida que faz ganhar outro encanto.

Digno de um filme, o avançado do Montalegre começou a jogar com 18 anos! Sim, leu bem. O primeiro clube de Vilmar foi o Heliopólis Atlético Clube, emblema que o acolheu após um teste de captação em que o jogador teve de pagar 50 reais pela sua inscrição. Mas há mais…

Em Junho de 2019 teve uma lesão grave que o deixou fora dos relvados durante um ano e meio. Valeu-lhe a confiança do Montalegre e a sua força de vontade para não desistir do Futebol e hoje… bem hoje é o melhor marcador da série A do Campeonato de Portugal com 13 golos. Mas já lá chegamos!

O inicio do sonho custou 50 reais

Vilmar Júnior nasce no Rio de Janeiro, em 1995. Criado num ambiente humilde e trabalhador, aos 15 anos deixou a escola para ir trabalhar “numa loja de comida para animais”. Durante três anos alimentou o sonho de um dia ser jogador de futebol, no entanto sem uma oportunidade para mostrar o seu valor.

O click deu-se aos 18 anos. Em conversa com um amigo, soube de um clube que ia fazer testes de captação e apesar de algumas pessoas o “acharem velho para vingar no futebol”, Vilmar correu atrás do seu sonho.

“Quando cheguei ao Heliopólis Atlético Clube disseram-me que tinha de pagar 50 Reais, de inscrição, para fazer o teste. Caso não passasse devolviam-me o dinheiro. Fiz o teste a lateral direito, passei e fiquei no clube durante dois anos”, explicou a 100 Oportunidades.

O sonho de Vilmar começou assim aos 18 anos de idade, mas nem tudo foi um mar de rosas. As poucas possibilidades financeiras faziam com que o jogador perdesse algumas horas em transportes públicos para conseguir ir aos treinos e uma viagem que de carro demoraria menos de uma hora, tornava-se numa longa travessia de mais de duas horas de distância.

“Morava em Saracuruna, um bairro do Município de Caxias, no estado do Rio de Janeiro. De 2013 a 2015, andava cerca de uma hora a pé, depois apanhava dois autocarros. A partir de 2015, ia de comboio até Japeri e aí trocava para chegar a Queimados. Uma viagem de cerca de duas horas. Aí, caso tivesse dinheiro, apanhava um autocarro ou ia a pé e demorava cerca de 30 minutos para chegar ao estádio”, assume.

Uma rotina que habitualmente fazia quatro vezes por semana para treinar e jogar e que o fortaleceu mentalmente para as adversidades que foi encontrando ao longo da carreira.

A subida a profissional

Vilmar começou a jogar com 18 anos

Após dois anos no Heliopólis, Vilmar assinou o seu primeiro contrato profissional no Queimados Futebol Clube. Foi ali que começou a jogar como avançado a tempo inteiro e que despolotou o interesse de outros clubes brasileiros.

“O treinador dos juniores viu que eu tinha mais potencial como avançado e começou apostar em mim lá na frente. Subi a profissional, mas no Brasil nas divisões inferiores (estaduais), não dá para viver do Futebol. Joga-se três meses e depois é preciso trabalhar noutras coisas”, frisa.

Em 2017, o avançado brasileiro assina pelo Novo Operário, clube do estado do Mato Grosso do Sul, a 16 horas de distância de carro da sua casa. Uma viagem que Vilmar fez para continuar a lutar pelo seu sonho. Ali chegou para “compor a equipa” e não estava previsto ser titular, mas “quando entrou outro treinador” ganhou maior protagonismo.

“Comecei a jogar mais, no entanto sem marcar o primeiro golo como profissional. Nas meias-finais do campeonato, consegui fazer o golo da passagem à final, onde garantimos automaticamente o apuramento para a Taça do Brasil e para a Série D do Brasileirão. Ou seja, o meu primeiro golo como profissional garantiu algo histórico para um clube que tinha cinco anos”, confidenciou.

A lesão que lhe podia ter acabado com o sonho

Em 2017, surge a oportunidade de vir para Portugal fazer testes à AD Fafe. Uma oportunidade que Vilmar não desperdiçou, com o avançado brasileiro a convencer o técnico Manuel Monteiro.

“No primeiro dia, quando chegou ao Fafe, perguntou-me em que posição jogava e eu disse que era extremo, então ele prontamente disse que podia cruzar a bola na área que ele era muito bom de cabeça”

Nei, ex-companheiro de equipa, sobre a chegada de Vilmar a Portugal
Vilmar e Nei cruzaram-se na AD Fafe

Após 22 jogos e cinco golos, o jovem brasileiro mudou-se de malas e bagagens para o Interior. É em Oleiros que continuou a deixar a sua marca, numa temporada em que o próprio admite ter-se sentido em casa.

“Fui muito bem acolhido. Sentia-me em casa, parecia que estava no Brasil. Tratava as pessoas por tio e tia. É um ambiente diferente, pois parecemos os filhos da população”, assume com nostalgia.

Na época de 2018/19, em Oleiros, totalizou 28 partidas e marcou por seis ocasiões. Estava tudo bem encaminhado para cimentar a sua posição no Campeonato de Portugal, quando o pior aconteceu.

“Em Junho de 2019, lesionei-me numa partida entre amigos. Parti o perónio e rompi os ligamentos do pé esquerdo. Em 48 horas fui operado duas vezes. Tive um ano e meio parado com uma lesão muito grave, em que o médico disse que não podia voltar a jogar”, começou por explicar um dos obstáculos mais difíceis que teve de ultrapassar.

Tive pessoas que me abandonaram, empresários e amigos, pois pensavam que já não ia voltar a jogar mais e nessa altura quase entrei em depressão. Foi um ano e meio muito complicado.

Fora do seu país e longe da sua família, Vilmar teve o forte apoio da sua companheira (agora esposa) que conheceu em Portugal, assim como a mão de um clube que, naquela situação, fez o que poucos fariam por um jogador.

“O mister José Manuel Viage já gostava de mim e quando acabava a época, ele ligava-me e questionava se queria vir para cá. Nesse Verão, ele voltou a ligar e eu disse que estava lesionado, mas ele insistiu que queria contar comigo de qualquer das formas e fazia a recuperação no Montalegre. E assim foi. Estou muito agradecido por tudo o que ele e o clube fizeram por mim”.

“Sempre acreditei que ele poderia voltar em grande, mas não assim logo no primeiro ano após a cirurgia. Eu acompanhei-o nessa má fase e cheguei a ir ao Hospital com ele. Muitos deram o Vilmar como “morto” para o Futebol, mas a sua fé e o acreditar que era possível voltar fizeram a diferença”

Nei sobre a lesão grave de Vilmar

Durante um ano e meio, Vilmar recuperou-se no clube, via os jogos do Montalegre e trabalhou nas obras para se aguentar financeiramente. Uma espera que lhe valeu a integração no plantel desta temporada, com o avançado brasileiro a corresponder com a sua melhor época de sempre.

“A melhor forma que tenho para agradecer o apoio do clube é ajudando a equipa a vencer jogo após jogo. Trabalhei muito para recuperar a 100% e fiquei muito feliz quando me estreei pelo Montalegre, pois percebi que era a mão de Deus a ajudar-me a vencer este obstáculo, que o próprio prognóstico médico apontava para o fim da minha carreira”, aponta.

Com a cabeça em Montalegre, mas com o sonho da Seleção Nacional graças a Liedson

Se Vilmar está a fazer a sua melhor época de sempre – 14 golos em 22 jogos – a temporada do Montalegre também está a ser bastante positiva. Apesar de os objetivos iniciais serem “lutar pelo 1º lugar”, o 4º lugar e o consequente apuramento para a fase de acesso à Liga 3 não deixa de ser um feito notável.

O avançado brasileiro assume que está “completamente focado no Montalegre e nos objetivos da equipa”, mas não esconde que um dia quer “estar num campeonato profissional”.

“Espero muito que ele possa chegar ao nível mais alto do futebol mundial. Ele tem qualidade para isso, falta a oportunidade para ele demonstrar que é um grande avançado”

Nei quando questionado sobre até onde pode chegar Vilmar

Quanto ao futuro e a objetivos de carreira, Vilmar tem o plano bem traçado e se tiver de escolher entre a seleção brasileira e a portuguesa, nem pensa duas vezes.

“Já assumi publicamente que desde pequeno que sonho representar a seleção portuguesa. Se hoje o Brasil ou Portugal me dissessem que tinha de fazer uma escolha, eu escolhia a seleção portuguesa. Eu sou brasileiro, mas desde pequeno que tenho o sonho de jogar por Portugal. Tenho como inspiração o Liedson, a história dele também se parece um pouco com a minha.. também começou tarde no futebol, começou por baixo e conseguiu chegar lá em cima”, explica sem rodeios.

Com a força de um Urso e o plano bem traçado

Já numa fase final da conversa, questionámos Vilmar se tinha alguma força dentro dele que lhe permitia superar as adversidades que a vida lhe tem colocado e a resposta não podia definir melhor o seu carácter.

“Quando me perguntam que animal eu me pareço? Eu acho que tenho semelhança, devido à força, com um Urso. Um animal muito forte e quando eu quero algo, tenho uma força, que nem eu próprio sei de onde vem, que me dá coragem e não tenho medo de nada. Sou também uma pessoa evangélica e Deus disse que eu ia ser jogador de futebol e quando eu tive a lesão, eu não duvidei que Deus ia cumprir aquilo que disse. Sempre tive a certeza que Deus estaria sempre comigo”, disse, definindo o plano que tem traçado para a sua carreira.

“Não tenho pressa de chegar onde quero chegar. Só tenho de fazer bem as coisas. O primeiro passo é chegar à Primeira Liga e depois à seleção portuguesa, com ambição de jogar também a Liga dos Campeões. Sei que se continuar a trabalhar, vou atingir os objetivos”, conclui.

O Vilmar é um avançado rápido, possante, com um perfil médio-alto e polivalente, pois na minha opinião tem características que lhe permitem jogar também nas alas, sendo indiscutivelmente um ponta de lança.

É um jogador intenso e com uma entrega enorme ao jogo.

Tecnicamente é um jogador com recursos, boa visão e leitura de jogo e com instinto finalizador. Tem uma condução de bola rápida e sai com facilidade para o espaço, quer com bola quer sem bola. É um jogador que não tem medo de encarar os adversários e arriscar no 1×1.

A nível tático é um atleta inteligente, posiciona-se bem sendo o primeiro a pressionar o adversário. É rápido na reação à perda, ativo na procura de espaços para oferecer linha de passe aos colegas. Tem uma boa tomada de decisão no último terço e joga bem entre linhas, de costas para a baliza num jogo mais apoiado.

Lê bem os movimentos dos defesas e procura em situações pontuais a bola na profundidade. Aparece bem nas zonas de finalização e não facilita quando tem espaço para o remate.

É um jogador que, a manter o rendimento atual, poderá chegar a outro patamar.

NOMEVilmar Paulino Tomazia de Amorim Júnior
DATA DE NASCIMENTO20/06/1995
POSIÇÃOPL
PÉ DOMINANTEDireito
EQUIPACDC Montalegre
NACIONALIDADEBrasileira
ALTURA186 cm
PESO79 kg
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1 thought on “#57 Vilmar – O menino de Saracuruna tem um sonho Nacional

  1. Olá sou um analista de desempenho, e treinador de futebol é um Scout. Bom conheço pessoalmente o atleta Vilmar o Urso, sempre acreditei no seu potencial sempre fui fã do seu futebol, e um atleta de muita qualidade técnica de muita força. Tem muita intensidade pressão ao portador da bola, muito bom no confronto aéreo ofensivo, tem uma boa transição ofensiva, tem bons passe curto e longo, finaliza bem de fora da área com chutes muito forte, tem uma capacidade tremenda de fazer leitura do jogo. Quero aqui agradecer a ele por ser meu amigo, e dizer pra ele continua sempre com essa humildade e dedicação e perseverança, sempre confiar no Deus vivo.

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