“Relato Informal” com Rui Óca

Rui Óca, avançado de 31 anos aceitou o nosso desafio e é hoje o protagonista do “Relato Informal”. Na ressaca do magnífico feito na Taça de Portugal, com a eliminação do Sporting da Covilhã, da 2ª Liga, o atacante do Serpa relembrou um episódio que o fez mudar a sua atitude no futebol.

“Tenho uma história engraçada e gostava de dedicá-la ao meu pai em vésperas do seu 60º aniversário, que se passou pela altura dos meus 15/16 anos,nos escalões de juvenis. Jogávamos aos domingos de manhã e nessas idades, como se sabe, é quando se começa a sair à noite com amigos , beber uns copos, chegar mais tarde a casa, e isso acontecia inevitavelmente às sextas/sábados à noite”, começa por dizer.

“Certo sábado à noite um amigo meu fez anos e fomos todos sair. Eu e os meus colegas chegamos de madrugada a casa, com muita bebida à mistura, e íamos jogar nessa manhã de domingo. Praticamente foi chegar a casa, comer qualquer coisa e ir direto para o campo. O jogo até correu bem, acho que até marquei uns golos e disfarcei a coisa”, prossegue.

“No entanto, o meu pai, também ele jogador e desde sempre ligado ao futebol, apercebeu-se dessa situação, não me disse nada na altura e esperou que chegasse a casa depois do jogo para me dar uma dura e avisar que seria a última vez que isso acontecia, que era uma falta de respeito para com os colegas e equipa técnica. Nessa altura nem liguei, jogava sempre, marcava os meus golos e achava que era eu que estava certo”.

“No sábado seguinte, véspera de mais um jogo, mesma história. Chegar a casa às tantas, comer qualquer coisa, pegar na mochila com as chuteiras e as caneleiras e ir a caminho do campo. Só que nesse dia não havia chuteiras, nem caneleiras. Andava louco pela casa à procura das coisas e não achava até que o meu pai chegou pé de mim e só me disse:

“Rui, não achas as coisas porque fui eu que as escondi, e digo-te mais, hoje não vais jogar e vais ligar ao teu treinador a explicar porque não vais jogar! É uma falta de respeito para com os teus colegas e treinador, chegares para o jogo nessas condições, sem te deitares”.

E assim foi , peguei no telefone e liguei todo envergonhado para o treinador para explicar a situação. Lembro-me que o meu pai só me entregou o material de treino na semana seguinte para ir ao treino. Aí percebi, naquela casa, que com ele a mandar teria de escolher, ou sair à noite com os amigos , ou dedicar-me ao futebol com paixão e compromisso, mesmo que a nível amador”. “Com ele aprendi cedo esses valores que ainda hoje me definem os sacrifícios que temos de fazer em prol do que gostamos, para colher frutos mais tarde. É curioso que dessa geração da minha equipa sou o único que ainda joga futebol federado, e tenho a felicidade de ter conseguido chegar este ano aos campeonatos nacionais com o meu clube, o Serpa, ao fim de 15 anos a tentar esse objetivo.”

“Podem dizer que perdi muita festa, muita diversão com os amigos em prol do futebol, que nem a profissional cheguei, mas hoje posso dizer que ganhei muito mais do que o que perdi. Valores como o compromisso e responsabilidade! Comecei a jogar com 7 anos de idade, tenho 31 e ainda jogo. E quero ser treinador um dia mais tarde”, concluiu.

Partilha com os teus amigos:

Outros artigos do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.